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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Memória de outro tempo - António Aleixo


Se existe poeta popular que esteja no pódio dos meus favoritos é sem dúvida o António Aleixo. Foi com ele que aprendi em tempos o prazer de criar poesias. Uma pessoa de tão poucos estudos ensinou-me mais do que muitos professores de português.

Ao ler os versos que deixou escritos, quantas vezes tão actuais, ainda me fascino. Algumas das minhas composições que por opinião própria são as mais complexas, vêm da inspiração que o poeta popular de Vila Real de Santo António despertou na minha cabeça.

Foi com o António Aleixo que comecei a criar em tempo poemas com "mote" e "glosas". E foi com algumas das melhores quadras do Aleixo que transformei em mote que construí as melhores dedicatórias a esse grande poeta.

Mote

Ser artista é ser alguém!
Que bonito é ser artista...
Ver as coisas mais além
Do que alcança a nossa vista!

                               António Aleixo

Glosas

Nem só o trabalhador
Pode ter identidade
Porque a igualdade
Foi-nos dada pelo criador.
É com um pouco de dor
Se um dia a mim vem
E diz que sou ninguém;
Só o diz por ter inveja,
Pois não há ninguém que não veja
Que ser artista é ser alguém!

É bonito ser doutor
Também o é ser engenheiro
Ou até ser pedreiro
Ou mesmo lavrador.
Desde o alpinista
Ao pianista
É bonita qualquer profissão,
Pois sabe o parvo ou o sabichão
Que bonito é ser artista.

É bom ver a luz que alumia
Ver o real e o imaginário
Ver o bom e o ordinário.
Tal como o mestre da astrologia
Que prefere a noite ao dia,
Para ver bem
As surpresas que o céu tem,
Também o artista
Usa o seu ponto de vista
Para ver as coisas mais além.

O artista, vê de tudo
O que aprende por sua mão
Tal como o cego com a escuridão
E o surdo com o mudo;
Ver as coisas do mundo.
E não ser egoísta
Como não o é o artista
Ou o poeta também,
Que vêem as coisa mais além
Do que alcança a nossa vista!

      Maio/Junho de 1998

Na realidade a métrica não está grande coisa, mas este foi apenas o segundo poema escrito com décimas (estrofes de 10 versos). Mesmo assim foi uma grande novidade na minha poesia da altura. O texto em si parece também não fazer grande sentido para que o leia pela primeira vez, também o é para mim já que o passei directamente do rascunho e não transcrevi a versão final que não tenho aqui comigo no momento. Essa sim, tem um outro efeito final.

Ao António Aleixo devo quase mais de 15 anos de poesia. Sem esse grande mentor eu seria apenas mais um poeta incógnito. É certo que me mantenho incógnito, mas pelo menos um pouco mais versado. (rsrsrs)




8 comentários:

João Roque disse...

António Aleixo é o exemplo máximo de que a Cultura não reside nos estudos.
Cada um tem a sua Cultura própria e a questão está em ser capaz ou não de a transmitir de uma forma simples e fácil de compreensão. Foi o que fez, com mestria António Aleixo.

Francisco disse...

Grande poeta :D

miguel disse...

a métrica está um bocado selvagem, sim, mas tem ritmo. e sobretudo é um excelente desenvolvimento do mote.

não sei se gostas ou costumas ler, mas eu acho que tu havias de gostar de Camões. é um poeta imenso (o maior) mas que retém qualquer coisa da poesia popular de que tanto gostas.

Ribatejano disse...

João

É por isso que não deve ser esquecido. Por mim nunca será.

Ribatejano disse...

Francisco

É mesmo.

Ribatejano disse...

Miguel

Os Lusíadas não me atraem mas conheço outros poemas muito interessantes. Basta ir à fonte em busca de Lianor... fermosa e não segura. lol

Margarida disse...

obrigada por nos fazeres recordar de AA, Ribatejano, eu também gosto dele, embora não o leia muito. e gostei muito da tua poesia, claro. :)

Ribatejano disse...

Margarida

Como eu sempre digo, as pessoas só morrem quando forem esquecidas.

Virá o dia... mas não por enquanto.