Este blogue tem conteúdo adulto. Quem quiser continuar é risco próprio; quem não quiser ler as parvoíces que aqui estão patentes, só tem uma solução.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Eu ainda sou do tempo...

Era assim que começava uma publicidade de uma cadeia de distribuição nacional, quase há uma década atrás. Recuo uns trinta anos na minha curta vida. Nessa altura, na minha aldeia de origem, haviam duas mercearias, sendo uma delas explorada por alguém que me é querido.

Recordo que nessa altura a escolha era muito limitada, não havendo mais de duas ou três marcas de cada produto disponível. Uma única marca de leite (só gordo claro). Ainda vinha em garrafas de plástico que eram trocadas, eram vasilhame. Hoje seria impensável levar a garrafa debaixo do braço de novo para a loja.

O sabão azul e branco era vendido ao peso, após ser cortado de uma barra com quase 50 centímetros de comprimento. Não havia detergente para a máquina de lavar a roupa, que era um luxo inexistente em 99% das habitações. Havia detergente em pó para lavar à mão, em tanques de betão ou de pedra, como os que ainda existem no lavadouro público. Palha de aço para arear. Esfregão de arame para esfregar o chão de tacos de madeira, que seria lavados com REX (na verdade chamava-se XER, mas o povo achava o nome mais complicado). Depois havia a cera para proteger o soalho.

A marmelada era ainda vendida ao peso. A loja tinha-a em tabuleiros com cerca de 40 x 30 cm. A papa das crianças era presença constante nas prateleiras. Chupa-chupas e outros rebuçados, vendidos à unidade. Recordo os caramelos Vaquinha, cubos com cerca de 1,5 cm de aresta envoltos em prata com uma vaquinha impressas. Eram sem sombra de dúvida os meus favoritos. Ainda salivo só de imaginar aquele sabor tão delicioso.

Lembro a antiga marca de chocolate Regina e uns redondos envoltos em prata com diversos desenhos impressos, de vários temas, que todos gostávamos de coleccionar. Desembrulhavam-se com muito cuidado e tiravam-se os vincos com as unhas. Mais tarde seriam trocados os repetidos com os amigos.

Numa das mercearias estava instalado um posto público de telefone. Pagava-se ao impulso que aparecia num contador próprio. Era a dona da mercearia que percorria a aldeia a chamar as pessoas e a avisá-las que haviam chamadas.

Busco estas memórias sempre que vou a uma grande superfície e fico pasmado com as quantidades disponíveis e com as marcas. Quando os preços são idênticos, a escolha é mais difícil. Com menos marcas seria muito mais fácil escolher, o erro seria bem mais diminuto.

Há 30 anos atrás a mercearia era ponto de encontro dos vizinhos. Lá sabíamos as coscuvilhices, as notícias, datas de eventos importantes como as inscrições para a escola ou a vacinação dos cães. A mercearia era um centro social e o livro dos assentos (calotes) espelhavam as necessidades de uma população. A mercearia fiava, não deixando que os mais desfavorecidos se sentissem tão inferiorizados em relação aos restantes, já que todos pediam fiado. Era uma instituição de crédito sem juros.

As grandes superfícies actuais são bancos que só aceitam depósitos. Não há comunicação entre as pessoas pois somos todos estranhos. É claro que nos meios mais pequenos o supermercado ainda funciona como um centro social, pois os clientes vivem ainda quase todos na mesma área, algo que não acontece nos grandes centros urbanos (às vezes nem os vizinhos do prédio são conhecidos).

Dou comigo a escrever testamentos, por isso termino esta intervenção, esta descrição dos meus tempos de criança. Cresci, mudei de meio e aos poucos, vou perdendo laços que me foram tão queridos e que ajudaram a fazer de mim quem sou. Resta-me a memória e a esperança de continuar a dizer "Eu ainda sou do tempo...".


PS: Este texto foi escrito à noite. Qualquer erro é culpa do escurinho da noite. lol

10 comentários:

João Roque disse...

Um dos teus melhores textos de sempre.
Muito bom, sem qualquer sombra de dúvida.
E ainda por cima lembro-me disso tudo, menos da questão das chamadas, pois eu vivia numa cidade de província, mas as mercearias eram idênticas às que tu descreves.
E tdo ia em sacos de papel ou embrulhado em papel pardo...
Se te desculpas por possíveis erros por escreveres à noite, então eu aconselho-te a escrever mais vezes à noite...

Ribatejano disse...

João Roque

Obrigado pelo elogio e desta vez vou concordar contigo, é mesmo um dos meus melhores textos. É o resultado de uns dias sem computador e claro que o facto de ter sido escrito à noite foi a principal causa (um dia publico um texto que já escrevi em tempos sobre inspiração noctívaga).

innersmile disse...

bela homenagem às mercearias de antigamente. é incrível como o tempo passou tão depressa e estas coisas que parecem muito antigas (e que os mais novos nunca conheceram) eram, para nós os mais 'crescidos', o nosso quotidiano ainda "ontem".

só não me lembro dos caramelos Vaquinha! eram do género daqueles caramelos espanhóis que se colavam aos dentes?

miguel

Margarida disse...

na aldeia, havia isso tudo, era a loja. ao lado, na mesma casa, ficava o café com os matraquilhos. a loja vendia fiado, sim. eu levava a caderneta da avó e apontava-se lá as compras e pagava-se ao fim do mês.
desse tempo, herdei um meio serviço de loiça de pirex cor de tijolo... já lá vão 30 anos, também.

Speedy the Turtle disse...

Se a escuridão foi desculpa para este texto, só quero a partir deste momento posts nocturnos.

Francisco disse...

Também sou desse tempo :)

E o leite era "Vigor" ;)

Se bem me recordo ;)

Ribatejano disse...

innersmile

Os caramelos vaquinha não se pegavam aos dentes porque eram de produção nacional, nada a ver com aqueles caramelos espanholados. lol

Ribatejano disse...

Margarida

As mercearias da minha aldeia tinham taberna ao lado também. Era também na mercearia que se ia buscar o pão. A dona anotava as encomendas e o padeiro deixava na loja.

Ribatejano disse...

Speedy

Podes contar com muitos escritos nocturnos. Não posso é prometer sempre a mesma qualidade. lol

Ribatejano disse...

Ai Francisco

Havia mais "Vigor" na altura que agora.

hehehe

;)