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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Conta Encerrada - parte 2

Se os primeiros dias tinham sido algo enfadonhos, agora quase não tinha tempo nem para coçar o nariz. O gabinete, situado no quinto andar do edifício bancário, tinha uma boa vista. Se se chegasse um pouco mais para a direita dava para ver um pouco do cais do ferry, do outro lado eram apenas prédios que faziam sombra ao seu. Menos mal, assim o calor não era tão intenso, pois gostava pouco de manter o ar condicionado ligado.

Já não sabia a cor do tampo da secretária, tão coberta de papéis que estava. Os processos amontoavam-se por toda a superfície e pelas prateleiras e móveis restantes. Atender um cliente era quase uma aventura, obrigando-o a mover a papelada de um lado para o outro, tentando no entanto não misturar as folhas, em especial aquelas que não estavam agrafadas e que de quando em vez caiam no meio das outras.

O crédito mal parado era o seu maior problema, especialmente quando tinha que aturar a choradeira de senhoras que se diziam indefesas, que se faziam acompanhar muitas vezes pelos ranhosos dos filhos, que agarravam em tudo o que estava à mão para fazerem aviões e outras traquinices. Afonso tinha que manter o seu semblante de acordo com cada uma das situações, era como se fosse um actor, apesar de não ter tido essa disciplina na licenciatura que tinha no currículo. E os pequenos empresários mentirosos não se deixavam ficar atrás, inventando mil e uma desculpas para que os prazos fossem alargados ou que os juros fossem renegociados.

A crise que se instalara no passado estava-lhe sempre na mente. Se por um lado sabia que eram maioritariamente desculpas esfarrapadas que lhe eram transmitidas naquela sala, haviam porém histórias verídicas que o faziam pensar profundamente. Gostava de poder ajudar quem lutava e não tinha sorte, mas essa não era a sua tarefa, era sim obter os fundos necessários para a boa saúde financeira do seu patrão.

À hora de almoço descia ao piso térreo onde funcionava um restaurante de fast-food. Escolhia normalmente o hambúrguer pois era a comida que lhe parecia mais saudável, mais não seja por ser acompanhada de alguma verdura. Bebia água normalmente pois o seu estômago era impressionantemente esquisito quanto a outras bebidas, especialmente as gaseificadas, já que as alcoólicas estavam reservadas unicamente aos seus tempos livres.

Almoçava sozinho, não que se desse mal com as colegas, simplesmente porque já lhe bastava ouvir falar dos problemazitos caseiros delas à hora do café. Estava farto de ouvir falar de detergentes, sapatos, malas de couro, maridos, filhos e de tantos outros assuntos que só elas gostam de falar. Sentia-se porém observado por vezes, enquanto trincava a sandes de carne lambuzada com molho de tomate. Seria a miúda da caixa que usava horríveis meias de riscas? Talvez aquele rapaz loiro que servia as bebidas e que de quando em vez lhe piscava o olho? Olhava em todas as direcções discretamente e não conseguia identificar quem poderia ser. Talvez fosse só impressão ou uma forma de tentar que a hora de almoço fosse menos rotineira.

Limpou os lábios, levantou-se com o tabuleiro e despejou-o no lixo. Acenou ao rapaz das bebidas que esboçou um sorriso de orelha a orelha e voltou ao trabalho. Os papéis esperavam.





4 comentários:

Margarida disse...

olha que isto está muito bom. mesmo bom. normal, um dia normal na vida do Afonso - um dia muito visual, a mesa cheia de papéis, os clientes, o almoço. gosto.

um coelho disse...

O rapaz das bebidas esboçou um sorriso... e mais só lhe serviu água. :D

João Roque disse...

A Margarida foi comedida nos elogios.
Eu diria que está mesmo excelente.
Vou chamar a atenão do João Máximo...

Ribatejano disse...

João Roque

É sempre bem vindo quem vier com vontade de ler. Não me metas é em confusões. :D