Tantas vezes dou por mim a pensar que o silêscio se torna cada vez mais insuportável. Afinal, faz-me um pouco de confusão não ouvir nada, especialmente quando se repete todos os dias.
Gostava de poder ouvir mais do que o som que vem do despertador ou das melgas que voam em meu redor, em busca da melhor área da minha pele para picarem e me sugarem aos poucos.
Já nem a coruja das torres que aqui morava ao lado eu ouço. Tantas vezes a amaldiçoei que acho que deve ter migrado para uma outra ruína qualquer. Apenas um latido de um cão ao longe, por vezes, corta o desconcertante som do silência.
É verão. É nesta altura que o silêncio é interrompido pelas festas das aldeias em volta. Agora é a da sede de freguesia, que deixou de o ser devido à última reforma administrativa. Passam das duas da madrugada e lá tenho que ouvir, involutariamente, a mísica em altos berros. O pior é que as palavras chegam à minha casa com uma nitidez tal, que acho sinceramente que os que ainda por lá resistem nem as devem o sentir da mesma forma.
Esta termina esta noite, mas a próxima inicia dentro de três dias. É mais longe mas invariavelmente parecerá ser aqui à porta.
Não sou contra as festas de verão mas raios, um homem também precisa de dormir. Oh silêncio sagrado!