A vida é uma merda (1)
(Nunca esperei escrever um título assim mas é pura verdade)
Gosto de cozinhar. Não sou nenhum chefe experiente mas oriento-me muito bem entre tachos e panelas. Não sou nenhum chefe, mas sei cozinhar para mim e por vezes até para outros. Gosto de comida tradicional, sem ter medo de experimentar receitas novas, ingredientes menos comuns, comidas de outras paragens. Rio-me sempre que ouço falar de “cozinha de autor” - bull shit - isso é o que eu faço quase sempre e não é por isso que ando por aí a apregoar que fiz melhor do que já existe. O que é bom é para manter a receita, querem inventar façam-no sem medos, chamem-lhe o que quiserem; uma sandes de cozido não é cozido à portuguesa, é uma sandes de carne cozida. Não tenho pachorra para pratos muito elaborados, tudo o que for sujar mais que dois tachos já é demasiado complicado; bom sabor não implica tempo interminável de cozedura. Portugal é um país de culinária pobre, apenas mais elaborada para mascarar essa nossa pobreza nutricional que nos acompanha há tantos séculos. Açorda é comida de pobre, bacalhau à Brás também, já para não falar da chanfana de cabra velha. Aliás é uma afronta ao nosso pobre país pagar por um tradicional prato de pobre o que se paga por caviar (do bom). Cozinha é a minha terapia de choque: faz-me pensar na vida, resolver os problemas do dia a dia e até me alimenta; o estômago e a alma.
E sim, a vida é uma merda e cozinhar é um passatempo interessante.