Este blogue tem conteúdo adulto. Quem quiser continuar é risco próprio; quem não quiser ler as parvoíces que aqui estão patentes, só tem uma solução.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Sopa

Outono gelado. Noite.

Acendi a lareira e sentei-me no sofá. O computador ligado assim como a televisão. Acompanho um jogo de curling, embora não perceba muito do assunto. Joga a Alemanha contra a Noruega, equipas femininas.

Acabei de comer uma sopa feita ao cair da noite. Receita simples, com ingredientes que estavam no frigorífico. Colhi uma courgette que ainda cresceu no jardim. A próxima não deverá vingar por causa do gelo.

Aqui estou. O calor enche a sala aos poucos, embora seja complicada de aquecer. Um salão de baile neste castelo frio. Aos poucos o calor da lenha de oliveira diminui o frio que se faz sentir em alguns cómodos da casa. Lá fora está bem pior.

Não falta o calor do fogo... falta o restante...


sábado, 23 de novembro de 2013

Engate

Decidi que estava na hora de sair em busca de outro engate. Passei por todos os locais conhecidos e nada de encontrar o que pretendia. Uns engates eram demasiado velhos, gastos. Outros pareciam ser muito frágeis. Aquele era muito grosso. Um que não inspirava confiança.

As opções estavam a esgotar-se e eu, já quase desesperançado de encontrar o que realmente queria, resolvi àquele lugar que tantos falavam mas que nunca tinha tido coragem para lá ir.

A escolha era enorme e cada vez que vasculhava mais engates apareciam. Era tanta a escolha e na realidade apenas encontrava mais do mesmo: sempre o que encontrei nos outros lugares conhecidos.

Não havia outra escolha, tinha que ir em busca de um engate novo. Lá teria que desembolsar a quantia que estava destinada a outros assuntos. Dirigi-me ao local a que sempre tentei fugir. Por ironia do destino, já não havia o engate de que eu tanto precisava.


Raios. Como é que vou agora atrelar ao carro o reboque que tenho para ir à lenha?

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O conto da Margarida

O grupo reunia-se invariavelmente todas as noites. Um grupo de membros heterogéneos que preenchiam cada um dos lugares disponíveis. Não havia liderança. Os mais velhos davam a palavra aos mais jovens embora se notasse um respeito por parte dos últimos pelos que tinham mais experiência de vida.

O grupo era dono da noite, todo o espaço circundante lhes pertencia. O barulho provocava os cães e os outros moradores, os que viam na noite a oportunidade de descansarem para um novo dia de trabalho. Várias eram as vezes em que baldes de água, latas, sapatos velhos, voavam em direcção aos membros, que fugiam e gargalhavam pela falta de pontaria.

Não eram vagabundos. Assim que surgiam os primeiros raios de sol, retornavam a casa. Deitavam-se de papos para o ar, refastelados ao sol, na protecção das intempéries. Comiam e bebiam e à noite voltava aquela lufa-lufa que tinham já vivido na noite anterior.

Certa noite algo estava diferente, o número de membros diminuiu. Os mais velhos deram pela falta de duas mais novitas, que normalmente o acompanhavam, quase coladas. As duas em questão eram bem diferentes do resto do grupo, queriam mais do que os outros na realidade lhes podiam dar. Tinham sede de saber, conhecer o que se passava além das fronteiras quase rígidas, impostas pelas gerações anteriores. Afinal o mundo era tão grande e custava-lhes ficar limitadas àquele território.

As noites passaram e não apareciam. Um dos mais velhos, curioso, dirigiu-se então à sua casa, já que viviam juntas. Queria uma explicação, não queria acreditar que aquelas duas se tinham fartado do grupo. Estariam doentes?

Foi então que descobriu a verdade. As duas, ávidas de saber, passavam as noites em casa acompanhando aquela que lhes podia transmitir as coisas que o resto do mundo tem. As prateleiras repletas de livros, evidenciavam as longas noites de leitura e aprendizagem que aconteciam naquele espaço. O ancião do grupo entendeu então qual a razão para a ausência das duas.

Perceberam que estavam a ser observadas do lado de fora da janela. Uma delas foi então ao exterior e falou com o vulto. Explicou-lhe que a ausência devia-se ao facto da sua dona estar sozinha em casa e precisar de companhia. Em contrapartida os livros davam-lhes conhecimentos, daqueles que o grupo não conseguia satisfazer.

Tal como prometeram ao ancião algumas noites antes, as gatitas retornaram ao grupo algumas noites por semana. Passaram elas a ser as mais entendidas em diversos assuntos. Não se deixavam porém levar pelo conhecimento. Tinham novas histórias para contar e acima de tudo respeitavam os outros membros do grupo.

Margarida sentia-se bem junto dos seus livros e das adoradas gatas, que apesar de passarem algumas noites deitadas junto a ela, pareciam absorver todas as palavras que lia, evidenciado pelos movimentos constantes das orelhas das duas aprendizas. Livros e companhia das gatas… afinal já pouco faltava…



Desculpem...

... qualquer coisinha.

Às vezes é preciso pedir desculpa, mesmo quando acho que não há razões para isso. Nunca se sabe...


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Momentos

Mal entrei em casa atirei-me para o sofá. O dia foi mais complicado do que previra quando acordei na manhã daquele dia. Só me apetecia fechar os olhos, entregar-me à sonolência. No entanto percebi que algo estava errado. Silêncio completo. Um silêncio arrepiante, como se eu estivesse num castelo abandonado e não num apartamento. Olhei em volta e notei que haviam rosas espalhadas pelas prateleiras dos livros, penduradas nos quadros e junto à porta do corredor um montinho de pétalas de diversas cores. Levantei-me e segui o colorido e a fragrância que emanava do chão. Aquele carreirinho levou-me à casa de banho, onde uma banheira com água quente e alguma espuma esperava por mim. Não me fiz rogado, despi-me e entrei naquele banho quase celestial. A espuma tinha o cheiro que eu tanto gosto. Junto à banheira um copo de vinho tinto. Foi então que apareceste e com um sorriso nos lábios entraste na água e sentaste-te junto a mim. Senti a tua pele, o suave toque dos teus lábios roçando os meus. Ficámos ali, em completo silêncio só interrompido por ténues chapinhares, esperando que a água arrefecesse e que tivéssemos que partir para outros prazenteiros momentos.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Diário frio

Pouco passa das seis horas da madrugada e cá estou eu de volta do meu diário. Acordei às 5, resultado de ter deitado demasiado cedo na noite de domingo. Foi o frio que me fez ir para o leito tão cedo, depois de um banho quentinho para aquecer os ossos. Liguei o rádio despertador, troquei algumas mensagens e entreguei-me ao reino dos sonhos.

Não consigo estar demasiado tempo na cama, pelo que me obriguei a levantar. Se o fizesse mais perto da hora de sair para o trabalho, seria dor de cabeça certa durante o resto do dia. É assim comigo, talvez por falta de motivos para me deixar estar mais tempo ou porque o meu corpo, já tão habituado, me prega essa partida diariamente.

Sentado em frente ao portátil, vestido, com o robe e mantinha pelas pernas, pantufas calçadas, tentando manter o quente que o corpo lança, aqui nesta sala que continua fria, tão fria como na noite de ontem. Já tomei o pequeno almoço, pelo que, pelo menos por dentro, mantenho-me mais quente. Pareço um velho, dirão alguns; outros poderão entender-me melhor.

Nenhuma história me sai das células cinzentas, talvez porque ainda não tenham acordado totalmente. Acho que prefiro o silêncio da noite para poder criar as minhas aventuras, passar para o registo alguns dos meus sonhos, já que outros ficam simplesmente a marinar, à espera de se concretizarem. Esses, os mais pessoais, ficarão apenas na minha memória, podendo quiçá serem lidos por quem tenha alma tão desconcertante como a minha, quem me compreenda e se reveja em mim.

Diz o meu maior crítico que só escrevo disparates, que cabe a mim passar das frases aos momentos, que só eu posso transformar o virtual em realidade. Respeito a sua experiência e tento até aprender com ela, porém por enquanto, deixo-me ficar no meu canto, esperando dias melhores. Que venha uma nova primavera. Entretanto ainda falta acabar o outono e decorrer o frio inverno.

                                   Deitei-me a pensar só em ti
                                   Assim faço a todo o momento
                                   Gostava de te ter sempre aqui
                                   Que me saísses do pensamento

Lembrei desta quadra agora, tantas vezes escrita ao longo dos anos. Vinte já passaram, acho eu. Duas décadas de poesia que contam grande parte da minha história. Os sonhos já referidos que de outra maneira não serão contados.

                                    Nos momentos frios de agora
                                    Que gelam até o coração
                                    Peço que peguem na mão
                                    E me levem estrada fora

                                          Escrevo apenas o que vai na alma
                                          O que nela paira a todo o momento
                                          É assim que este meu pensamento
                                          Me descansa e até acalma

                                   Que dos sonhos já tão pensados
                                   E que ficam nesta memória
                                   Pois já são a breve história
                                   De vinte anos já passados

                                          Que o frio não faça esquecer
                                          Pois o esquecimento é a morte
                                          Não quero para mim essa sorte
                                          Pois vou sempre escrever

De promessas está o Inferno cheio, já diria a avó de outro. A minha tem-se cumprido e desde que eu possa assim continuará, pois as prosas e os versos, sentidos ou inventados, bons, maus ou estragados, com bom efeito ou sem tino, continuarão a definir quem sou e serei .

                                  E antes que escreva sem nexo
                                  Apesar de sentir que já comecei
                                  Vou terminar aqui a escrita
                                  Pois nesta semana mais tempo terei.

Ribatejano, o poeta pateta


domingo, 17 de novembro de 2013

Fim

Só é bom para as coisas más, para as boas é sempre mau.

PS: Publicação número 250. Nunca pensei chegar tão longe...