... em que teremos finalmente a oportunidade de viver os nossos sonhos.
Entretanto fica a distância que nos separa...
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Forreta
Já devo ter escrito algo sobre o assunto mas deu-me a preguiça de ir à procura. Sim sou forreta e tenho algum orgulho nisso. Mas não sou forreta por não gostar de gastar dinheiro, bem pelo contrário, gosto muito de o gastar. Simplesmente não gosto é de o investir em coisas banais, como roupas de marca e outras porcarias semelhantes ou tecnologias.
Não me interesso minimamente por moda. Não quero saber sequer se as calças combinam com a camisola. Não me posso dar ao luxo de andar sempre a escolher, compro o que me serve e esse é sempre o maior problema. Também não gosto de calçar caro, afinal é para andar pelo chão e o caro hoje em dia já não é sinal de boa qualidade, antes pelo contrário, é apenas design.
Não tenho um telemóvel de última geração, daqueles que só por acaso até servem para fazer chamadas. Não gosto de i-pods, i-pads e outras coisas assim. Um telemóvel serve para falar com os amigos e para poder mandar mensagens, mesmo as mais parvas. Nada de complicações e preços exagerados.
Não compro camarão todos os dias, mas confesso que o gosto de fazer em alturas especiais: algumas festas ou quando me apetece. Não sou de culinária fina mas também não me deixo ficar por pratos usuais. Gosto de inventar, misturar ingredientes, obter novos sabores, aproveitar restos.
Não compro livros todas as semanas, nem todos os meses sequer. Gosto de comprar um livro dois ou três anos depois de ser novidade. Não é só uma questão de preço, gosto de ler sem ser constantemente inundado por comentários vindos de todo o lado. Quando deixa de ser novidade o povo esquece e eu agradeço.
Não tenho os CD's que estão na berra pois farto-me de ouvir sempre as mesmas músicas nas rádios nacionais. Tocadas vezes sem conta, até as minhas preferidas deixam de me interessar. Hoje comprei um CD do Nat King Cole, um dos meus cantores americanos favoritos. Apenas € 1,90. Uma pechincha tendo em conta a qualidade das músicas que contém.
Sou adepto das lojas dos chineses e não tem a ver unicamente com os preços por lá praticados. Bem sei que estão livres de impostos e que quem os fabrica são explorados diariamente. Gosto de ver a diversidade, de ver que um povo faz de tudo para sobreviver, até copiar as ideias dos outros. Não compro o que acho que não tem um mínimo de qualidade, mas compro o que encontro noutras lojas a preços exorbitantes, quantas vezes devido a marcas registadas e que afinal são fabricados exactamente no mesmo sítio que os produtos das lojas chinesas. As etiquetas não enganam.
Não faço férias no estrangeiro e só ultrapassei a fronteira terrestre portuguesa duas vezes na minha vida. Temos tanto que ver por cá, que me recuso a sair sem antes ter a oportunidade de visitar o bom que o nosso país oferece. Não saio mais porque existem locais que não devem ser apreciados a sós. Não faço intenção de me meter dentro de um avião nos próximos tempos. Não é medo de voar, é apenas a certeza de que se Deus quisesse que eu voasse, teria nascido pássaro.
Gosto de receber pessoas em casa e de lhes proporcionar conversa e algo que lhes encha as barrigas, que lubrifique as gargantas. Um doce, um salgado, uma bebida mais ou menos caseira. Gosto de investir nos meus hobbies, caseiros como sempre. Gosto de sair de bicicleta e percorrer estradas, transpôr montes. É talvez o meu hobbie mais dispendioso, mas mesmo sendo forreta não o deixo. Gosto de tantas coisas, tenho tantas ideias que infelizmente não podem ser concretizadas. Com tempo vai.
Dizem que sou forreta. Sou forreta e bom rapaz. Só não sou forreta com as letras, pois essas, por mais que eu tente, não me deixam em paz, não permitem que eu as poupe. Sou assim e desafio quem me queira mudar.
Não me interesso minimamente por moda. Não quero saber sequer se as calças combinam com a camisola. Não me posso dar ao luxo de andar sempre a escolher, compro o que me serve e esse é sempre o maior problema. Também não gosto de calçar caro, afinal é para andar pelo chão e o caro hoje em dia já não é sinal de boa qualidade, antes pelo contrário, é apenas design.
Não tenho um telemóvel de última geração, daqueles que só por acaso até servem para fazer chamadas. Não gosto de i-pods, i-pads e outras coisas assim. Um telemóvel serve para falar com os amigos e para poder mandar mensagens, mesmo as mais parvas. Nada de complicações e preços exagerados.
Não compro camarão todos os dias, mas confesso que o gosto de fazer em alturas especiais: algumas festas ou quando me apetece. Não sou de culinária fina mas também não me deixo ficar por pratos usuais. Gosto de inventar, misturar ingredientes, obter novos sabores, aproveitar restos.
Não compro livros todas as semanas, nem todos os meses sequer. Gosto de comprar um livro dois ou três anos depois de ser novidade. Não é só uma questão de preço, gosto de ler sem ser constantemente inundado por comentários vindos de todo o lado. Quando deixa de ser novidade o povo esquece e eu agradeço.
Não tenho os CD's que estão na berra pois farto-me de ouvir sempre as mesmas músicas nas rádios nacionais. Tocadas vezes sem conta, até as minhas preferidas deixam de me interessar. Hoje comprei um CD do Nat King Cole, um dos meus cantores americanos favoritos. Apenas € 1,90. Uma pechincha tendo em conta a qualidade das músicas que contém.
Sou adepto das lojas dos chineses e não tem a ver unicamente com os preços por lá praticados. Bem sei que estão livres de impostos e que quem os fabrica são explorados diariamente. Gosto de ver a diversidade, de ver que um povo faz de tudo para sobreviver, até copiar as ideias dos outros. Não compro o que acho que não tem um mínimo de qualidade, mas compro o que encontro noutras lojas a preços exorbitantes, quantas vezes devido a marcas registadas e que afinal são fabricados exactamente no mesmo sítio que os produtos das lojas chinesas. As etiquetas não enganam.
Não faço férias no estrangeiro e só ultrapassei a fronteira terrestre portuguesa duas vezes na minha vida. Temos tanto que ver por cá, que me recuso a sair sem antes ter a oportunidade de visitar o bom que o nosso país oferece. Não saio mais porque existem locais que não devem ser apreciados a sós. Não faço intenção de me meter dentro de um avião nos próximos tempos. Não é medo de voar, é apenas a certeza de que se Deus quisesse que eu voasse, teria nascido pássaro.
Gosto de receber pessoas em casa e de lhes proporcionar conversa e algo que lhes encha as barrigas, que lubrifique as gargantas. Um doce, um salgado, uma bebida mais ou menos caseira. Gosto de investir nos meus hobbies, caseiros como sempre. Gosto de sair de bicicleta e percorrer estradas, transpôr montes. É talvez o meu hobbie mais dispendioso, mas mesmo sendo forreta não o deixo. Gosto de tantas coisas, tenho tantas ideias que infelizmente não podem ser concretizadas. Com tempo vai.
Dizem que sou forreta. Sou forreta e bom rapaz. Só não sou forreta com as letras, pois essas, por mais que eu tente, não me deixam em paz, não permitem que eu as poupe. Sou assim e desafio quem me queira mudar.
domingo, 29 de setembro de 2013
terça-feira, 24 de setembro de 2013
textos inacabados (1)
Era minha intenção parar de escrever por uns dias mas o "bichinho" não me deixa em paz. Inauguro aqui uma série de textos que ficarão inacabados, possivelmente para sempre. Um amigo diz-me que serei um escritor famoso por não terminar o que começo. Tem sido assim em muitos momentos da minha vida, mas isso é outra conversa.
Aproveitando a época eleitoral actual comecei a escrever uma história com a campanha como tema de fundo. Os nomes das personagens escolhidas vieram à cabeça com naturalidade, por isso não devem ser confundidas com possíveis conhecimentos que eu tenha. Gosto dos nomes e pronto.
Apenas mais um dia de campanha eleitoral numa movimentada rua da cidade. Uma multidão seguia o candidato, cabeça de lista para o principal órgão executivo da região. Marco, um jovem de apenas 22 anos, encontrava-se no meio da confusão. Uma bandeira na mão esquerda, na outra um megafone, a mandar palavras de ordem, de apoio. Os seus cabelos, orgulho daquele rapaz de pele bronzeada, resultado de um verão passado na praia, esvoaçavam com a brisa que se fazia sentir, naquela tarde praticamente outonal.
Aproveitando a época eleitoral actual comecei a escrever uma história com a campanha como tema de fundo. Os nomes das personagens escolhidas vieram à cabeça com naturalidade, por isso não devem ser confundidas com possíveis conhecimentos que eu tenha. Gosto dos nomes e pronto.
Apenas mais um dia de campanha eleitoral numa movimentada rua da cidade. Uma multidão seguia o candidato, cabeça de lista para o principal órgão executivo da região. Marco, um jovem de apenas 22 anos, encontrava-se no meio da confusão. Uma bandeira na mão esquerda, na outra um megafone, a mandar palavras de ordem, de apoio. Os seus cabelos, orgulho daquele rapaz de pele bronzeada, resultado de um verão passado na praia, esvoaçavam com a brisa que se fazia sentir, naquela tarde praticamente outonal.
Apertos de mão, abraços, conversas,
promessas certamente faltas. Tudo normal para uma campanha eleitoral
em que a imagem se torna cada vez mais importante, deixando para trás
as qualidades que realmente interessam para o posto que será
ocupado. E Marco apoiava tudo aquilo. Não por ser igual mas por
querer ser diferente. Sonhador dizem alguns; força de vontade em
querer mudar, dizia para si próprio o rapaz, que quase rouco, seguia
o cortejo, quantas vezes arrastado, quase no ar.
Uma rua mais larga surgiu de repente. A
multidão espalhou-se e Marco pôde finalmente tocar com os pés no
chão. Decidiu parar um pouco para recuperar o fôlego e sentou-se na
primeira esplanada que encontrou.
“Uma água fresca faz favor”, pediu
Marco ao empregado que rapidamente chegara à mesa. A garrafa de
litro e meio depressa veio parar à sua beira. Pensou para si que era
um exagero, mas a verdade é que num ápice virou três copos quase a
entornarem. Sabia-lhe bem a frescura naquela tarde ainda quente.
Olhou em volta e deu-se conta de que a multidão tinha dispersado
quase na totalidade. Talvez tivessem ido em busca de sombras ou
simplesmente invadido os cafés instalados em redor. O candidato
meteu-se pelo centro comercial da esquina e Marco ficou para trás.
Nem se preocupou com a campanha, afinal estava ali tão bem naquela
sombra. “Amanhã há mais”, disse baixinho.
“Desculpe, pode-me dizer onde fica
esta rua?”. Marco virou-se para a direita em busca da boca por onde
saiu aquela pergunta, Junto de sim, um rapaz aparentando a mesma
idade, olhava-o com um papel na mão, esperando uma resposta.
Notava-se o aspecto de turista pois as roupas frescas, mochila,
óculos escuros e uma ténue mancha de suor assim o comprovavam.
Marco tentou explicar mas atrapalhou-se e perdeu-se nas indicações.
“Olhe o melhor é eu levá-lo até lá ou ainda se perde, já que
vou para aquela zona também”, prontificou-se Marco.
A malha urbana era realmente demasiado
complicada de se explicar. Marco meteu por aquelas ruas que conhecia,
talvez querendo até mostrar o seu lado de guia turístico ao rapaz
que a seu lado ía, atento às explicações que lhe eram dadas sobre
alguns edifícios. Chamava-se Chico e estava a descobrir a cidade.
Preferia o final do verão, antes de começar as aulas na faculdade,
onde estudava arte e design.
“Olha, eu também estudo lá”,
disse Marco. “Eu sei... já te vi por lá”, respondeu Chico com
um sorriso nos lábios e tirando os óculos de sol, mostrando os
lindos olhos que por trás deles se escondiam. “A verdade é que
conheço bem a cidade, mas foi um pretexto que encontrei para falar
contigo”. Marco ficou espantado...
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Momentos musicais
Depois dos testamentos literários que tenho andado aqui a descarregar é altura de voltar a momentos mais culturais. A escolha caiu em António Zambujo, cuja voz me acalma.
Descobri recentemente um outro cantor que me era totalmente desconhecido, talvez por estar um pouco fora dos mercados musicais com que somos constantemente inundados. Falo de JP Simões.
E já agora recordar José Mário Branco. para podermos apreciar o presente nunca podemos esquecer o passado. Principalmente quando o passado é tão presente.
Descobri recentemente um outro cantor que me era totalmente desconhecido, talvez por estar um pouco fora dos mercados musicais com que somos constantemente inundados. Falo de JP Simões.
E já agora recordar José Mário Branco. para podermos apreciar o presente nunca podemos esquecer o passado. Principalmente quando o passado é tão presente.
domingo, 22 de setembro de 2013
O final prometido
Chegou a hora de terminar um conto que escrevi recentemente e que já tinha publicado as seis partes iniciais, faltando unicamente duas. Republiquei todo o texto para dar algum nexo ao que faltava publicar. Peço perdão pelo "testamento" que vos deixo, mas podem sempre ler apenas o que vos interessar.
Capítulo
1 – O avião
Tardiamente
percebi que a tua ausência seria motivo suficiente para enlouquecer.
Naquela manhã acordei e percebi que não estavas comigo. Que tonto
fui. Podia ter largado tudo e com medo quiçá de mim próprio,
deixei-te partir. Tomei um garrafão de coragem, enchi uma pequena
mala de roupa e saí de casa. O banco estava apinhado naquela manhã.
Dia de pagamento das reformas. Levantei quase todas as minhas
economias deixando o gerente daquela dependência bancária de boca
aberta. Já me conhecia há muitos anos e sabia o quão sovina eu
sempre fora. Teria enlouquecido?
O
trânsito estava anormalmente lento. E eu, que queria chegar rápido
ao aeroporto, desesperava, cada vez que o taxista pisava o pedal dos
travões. Praguejava para mim mesmo, ao contrário do motorista que,
com a sua rudez, se esquecia constantemente que eu estava já ali
atrás.
Entrei
apressado por aquele espaço, que embora não me fosse desconhecido
era a catedral da confusão. Apressei-me para a bilheteira e adquiri
o tal bilhete de avião. Estava já à porta de embarque quando me
lembrei que nunca tinha tirado os pés do chão. Queria voltar atrás.
Afinal se Deus quisesse que eu voasse tinha-me mandado à terra como
pássaro. Venci o meu medo pensando na razão que me tinha levado até
ali, estiquei o peito e mesmo nervoso, disse para mim mesmo que o
medo é coisa que não me assiste (onde é que eu já li isto?!).
Todo
eu tremia, agarrado com todas as minhas forças ao banco. Quem me
dera que aquele banco tivesse mais cintos, um só parecia-me pouco.
Desejei que aquele voo fosse como aqueles que se vêm nos filmes de
ficção científica, em que se adormece numa cápsula e só se
acorda no destino. «É a primeira vez que voa?», perguntou-me a
senhora que estava a meu lado. Com alguma dificuldade abri os olhos e
visualizei aquela senhora idosa toda vestida de preto e branco. À
primeira vista parecia um pinguim mas era apenas uma carinhosa
freira. Pousou a sua engelhada mão sobre a minha e disse «Deus está
connosco e nada de mal acontecerá!».
Afinal
aquilo lá em cima não era o que eu pensava. Fitei um ponto no banco
da frente e assim me mantive algum tempo. Uma voz doce saiu das
colunas a avisar que teríamos que voltar a colocar os cintos.
Voltar?! Eu nem sequer o tinha tirado ainda. Livra. Sentiu-se
turbulência e fechei de novo os olhos. Todo o aparelho tremia e eu
agarrava-me com todas as forças, quase fixando os meus joelhos ao
banco da frente.
Capítulo
2 – A porta
Quando
voltei a abrir os olhos não vi ninguém. Mantinha-me no meu lugar
mas a meu lado já não estava a freira e o avião parecia estar
parado. Não se ouviam as turbinas e dentro do espaço havia uma
espécie de nevoeiro. Uma voz doce. «Então vai ficar aí por muito
tempo? Os outros já sairam». Virei a cabeça e vi talvez o rapaz
mais bonito com quem já me tinha cruzado. Cabelos louros, ouro puro.
Olhos azuis, profundos. Lábios rosados, carnudos. Nariz na proporção
correcta, um sonho. Bata branca, imaculadamente lavada. «Já
parámos?», perguntei. Aquela linda cabeça acenou. «Estamos à tua
espera lá fora. Vem comigo».
Levantei-me
surpreendentemente devagar. Afinal desde a altura que entrei naquere
aparelho diabólico, que desejava sair o mais rápido possível.
Cheguei à porta, não havia escada. «Mas como raios vou eu sair
daqui? Onde está a escada?». Aquele jovem lindíssimo olhou para
mim, pegou a minha mão e avançámos para o abismo. Contrariamente
ao que eu esperava flutuámos suavemente até atingirmos um tapete
tão imaculadamente branco como a bata e as asas do meu “transporte”.
«Asas?! Mas afinal onde é que eu estou?!»
A paz
invadiu todo o meu corpo. Quando abri os olhos quase gritei. Afinal
era apenas a velha freira que me olhava de cima. «Então meu filho,
que se passa?». «Onde é que estamos?». «No céu meu filho, no
céu.». «No céu? Então não era suposto já estarmos no chão?!».
«Meus
senhores, para quem ainda não tenha percebido, estão todos mortos.
Isto é o céu e daqui a pouco chegará o transporte que os levará
ao portão número 1. Para quem não saiba, o portão número 1 é
guardado por S. Pedro. Tenham cuidado que nem sempre está de bom
humor. Pudera... é dono de meio mundo lá na terra e está por aqui
preso a guardar o portão do paraíso». Aquela voz rofenha,
claramente de quem já fazia esta apresentação fazia alguns
séculos, dava todas as indicações. «Crianças vão à frente e
depois as mulheres. Os homens esperam e se não houverem lugares vão
de pé.» Olhem, no céu também existem problemas com os transportes
públicos. Será por causa da Troika?!
Capítulo
3 – Espera
S.
Pedro parecia visivelmente cansado quando me apresentei. Nem consegui
dizer o meu nome pois interrompeu-me na hora. «Sei bem quem és!
Está tudo escrito aqui no livro da vida e da morte.» Fitou-me. «Ora
vamos a ver... filho de fulano e beltroa... católico... menos mau...
solteiro... meia dúzia de pecados menores... umas multas de trânsito
que já não serão pagas... parece que o banco perdeu um cliente...
ficaste a dever no restaurante no Manuel?!» Corei. «Logo do Manuel?
Um dos nossos bons fornecedores... que o meu patrão o perdoe.»
A
sala estava bem decorada. S. Pedro mantinha-se junto a um velho
computador resmugando. O software estava um pouco desactualizado e a
velocidade da máquina deixava muito a desejar. Os dados pareciam
estar correctos mas o cálculo não estava correcto. Constantemente
aparecia uma mensagem, dando conta de um erro. «Raios para esta
tecnologia. Onde é que eu guardei o manual de instruções?! Ah,
está aqui junto à Biblia.» S. Pedro abriu um pequeno volume de
papel já amarelecido e procurou no índice a página dos erros.
Ajeitou os óculos e olhou para mim por cima das lentes. Pegou noutro
volume, desta vez de capa lilás, folheou-o, leu o que estava escrito
e disse «Oh meu Deus... mais um?!»
O
corredor parecia não ter fim. Quadros decoravam as paredes.
Paredes?! Na realidade pareciam pairar no ar. Molduras de vários
estilos envolviam pinturas antigas. De quando em vez apareciam uns
esgatafunhos. Aproximei-me de um quadro e por baixo estrava escrito
“Picasso – 2013”. Parámos. A fila era grande, quase não se
via o início. O anjo mandou-me esperar.
Mais
uma sala, mas desta vez a decoração era deplorável. Bancos
corridos dispunham-se ao longo do espaço. Centenas de almas estavam
sentadas à espera. Sentei-me junto a um velho de cabelos brancos,
que me tirou todas as medidas num ápice. «Acabaste de chegar né?»
perguntou-me. Respondi afirmativamente. «Não te preocupes, daqui a
uma eternidade vais ser atendido.»
Capítulo
4 - Reclamação
Acho
que não aqueci lugar pois fui chamado de imediato. «Terceiro
gabinete à esquerda.» Disse-me um rapaz bem apessoado. Segui,
entrei no tal gabinete e sentei-me. O assento estava frio, mármore.
Na secretária, de carvalho velho, um homem, de cabeça virada para
os papéis, resmungava. Parece que no céu estão todos mal
humorados. Ao que parece, pelo que me disse o velho, as contigências
financeiras obrigaram a autentar o número de horas de trabalho. Até
os arcanjos já pensavam em fazer greve. «Sabe porque está à minha
frente?» perguntou-me. Acenei a cabeça negativamente. «Está aqui
porque o raio do software do cálculo do coeficiente de entrada no
céu deu erro de novo. E quando dá erro mandam sempre aqui para o
velho Joseph Ratzinger. Raios de sorte a minha. Tanto que eu lutei em
vida e agora isto.»
«Nos
termos da adenda ao artigo 6969 do regulamento de acesso às portas
do paraíso, que muito foi contestado mas que o patrão foi
resolutivo, todos os homossexuais têm o direito de se arrependerem.
Por isso tem uma de duas opções: ou se arrepende imediatamente ou
ficará na sala à espera que se arrependa.»
Já
esperava há uma eternidade quando me lembrei que sendo a burocracia
do céu tão parecida com a da terra, decerto haveria uma solução
para o meu problema. Lembrei-me então de ir até ao guichet e pedir
o livro de reclamações. Um trovão iluminou o tecto e todos olharam
em minha direcção. O homem, de olhos esbugalhados, abriu a boca.
Quase dava para lhe ver o estômago. «Livro de reclamações?!».
Indicaram-me
uma sala de porta verde. Não a consegui abrir à primeira, de tão
enferrujada que estava. Talvez fizesse muito tempo que não era
aberta. Pelo menos estava limpa. Um banco iluminado, de tecido
felpudo, esperava por mim. Sentei-me e como por magia, apareceu uma
secretária, uma caneta e uma folha de papel.
Assim
que pousei a caneta no papel para escrever a minha reclamação, um
novo trovão entoou pelo espaço. Desta vez o susto foi ainda maior.
E do meio de uma nuvem apareceu um homem de toga branca debruada por
uma renda azul celeste. «Com que então não estás satisfeito com
as regras da casa?!»
Capítulo
5 – Regulamento
O
jardim era mais maravilhoso do que tudo o que já vira anteriormente.
Árvores enormes formavam um claustro, rodeando um lago com água tão
clara que se viam os peixes e as pedras lá dentro. Quando nos
aproximámos daquele espelho um peixe veio à superfície, como que a
cumprimentar o homem de toga. Aves esvoaçavam pelo ar. Pássaros de
mil e uma cores, brilhantes. Sentámo-nos sobre uma pedra e
conversámos.
«Quando
escrevi o regulamento de acesso às portas do paraíso tudo era mais
fácil», explicou-me Deus. «Não havia confusão porque quase não
haviam pessoas. Com o passar dos séculos o caso mudou de figura.
Para começar os homens tornaram-se fúteis, interesseiros,
desordeiros. Não cumpriam as regras que lhes impunha». Olhei-o.
«Mas não é suposto o homem gozar do livre arbitrio?!». «Sim, era
essa a ideia inicial. Pelo menos pensava eu que era, mas mudou muito
o ser humano. Então tive que ir mudando as regras, tentando adaptar
o regulamento à realidade. Durante muitos séculos não foram
necessárias grandes mudanças mas ultimamente a coisa pia de outra
forma.». «Então e porque é que nós somos diferentes? Não
merecemos o teu amor de igual forma?», perguntei. Deus levantou-se,
espreguiçou-se e voltou a sentar-se. «Qualquer pai deve amar os
seus filhos, independentemente dos disparates que façam ou dos
caminhos que tomem. E eu não sou diferente. O problema é que até o
paraíso se tornou político.». Achei a expressão estranha. «Os
anjos e os arcanjos passaram a ter opiniões diferentes e os santos
vieram colocar ainda mais questões. Vê o caso de Pedro. Tem dias
que ninguém o consegue aturar. É a velhice, dizem alguns... mas eu
acho que é mesmo casmurro. Se calhar é defeito de ter sido
pescador.». Mandou uma gargalhada sonora que até um unicórnio se
assustou. «E não era dos melhores até eu o ter ajudado a pescar
com fartura.»
«Então
quer dizer que tens um regulamento mas não concordas com ele.
Parece-me um pouco estranho, uma vez que és o criador de tudo.».
Deus fitou-me. «Pois. A realidade é que aqui no céu apesar de eu
governar como todo poderoso não sou nenhum ditador. Já foi o tempo
em que eu tinha que decidir tudo. Um dia decidi que devia partilhar a
responsabilidade. Numa visita à terra, encontrei uma rapariga bonita
e perdi-me de amores por ela. Ora como era minha intensão partilhar
o governo do céu, qual a melhor solução além de encontrar um
herdeiro? E assim nasceu Jesus, o meu filho e herdeiro.»
Capítulo
6 – Patrão
Perdia-se
de vista a mesa onde tomávamos chá. Deus no topo, que confessou ter
uma predilecção especial por pastéis de nata, tinha à sua frente
o que deveriam ser pelos meus cálculos, cerca de duas dúzias de tal
iguaria. Eu não tinha fome e fiquei-me pelo delicioso chá de uma
mistura de ervas, mantida em segredo, resultado de séculos de
experiências do arcanjo Gabriel. Continuei a conversa. «Mas Deus e
que faz Jesus afinal?». «Olha meu filho, actualmente substitui-me
nas minhas visitas a todos os mundos que criei. A minha idade tem-me
obrigado a ficar um pouco mais pelo paraíso. A minha idade e S.
Lucas com as suas manias de médico. Vê lá que agora inventou que
me devo tornar vegetariano.» Nova gargalhada entoou pelo espaço,
assustando desta vez um par de pombas brancas que estavam pousadas
num candeeiro de pé alto, junto a um velho telefone de manivela. «E
Jesus não é um filho obediente?», inquiri. «Olha, é como o
tempo: uns dias bons, outros maus. Mas também tem boas qualidades.
Foi ele o responsável pela informatização do paraíso. Organizou a
biblioteca e criou uma aplicação que pondera as boas acções e as
más, para avaliar a entrada no paraíso.». Sorri. «Ou seja, aquela
aplicação que S. Pedro tando desgosta.». «Efectivamente. Mas a
verdade é que o Pedro agora até tem mais tempo para fazer outras
coisas, como pintar, que é uma grande paixão.»
«Uma
coisa me deixa intrigado. Como é que o paraíso tem tanto espaço
para todos os que já morreram ao longo nos milénios?». «Ainda bem
que me fazes essa pergunta, meu filho. Na realidade o paraíso não é
interminável e por vezes há a necessidade de enviar alguns lá para
a cave, que é o nome carinhoso que aqui damos ao inferno. É claro
que a aplicação informática tem dado uma boa ajuda e aqui só para
nós tem dado bastante resultado. Uma outra solução é mandar de
quando em vez as almas de novo para a terra.». Olhei-o.
«Reencarnação? Existe?!». «Claro que existe meu rapaz e é uma
das minhas maiores criações. Assim vou-me livrando dos excedentes e
dou segundas oportunidades a quem mais merece. Algumas almas precisam
de viver várias vezes para que a entrada no paraíso não seja posta
em causa.». «Tal como a minha está a ser?», perguntei.
«Meu
filho, o teu caso é especial. Quando atribui o livre arbitrio ao
homem sempre pensei que ele não o usasse para usurpar a natureza.
Esqueci porém que a natureza por si só é mutante, ganhou vontade
própria. Então decidi não me preocupar muito com o assunto pois
acredito que o amor é a par da amizade, o mais importante sentimento
que existe.». «Então porque é que o meu caso é especial?».
«Acontece que com a criação das religiões na terra, os membros
criaram regras próprias. Umas formam-me atribuídas por tradição e
outras por subversão. Ora, muitos desses legisladores quando
chegaram cá acima, quase reviraram a casa. Para haver harmonia
debaixo do meu tecto lá tive que ceder em alguns assuntos. Daí ter
criado algumas adendas ao regulamento. Se por um lado os calei, por
outro fiz ver que quem tem a última palavra acabo por ser sempre
eu.»
Capítulo
7 – Paraíso
Deus não mora no Paraíso Prefere ficar “fora de portas”. Diz que assim tem mais descanso e concentra-se melhor, algo que não acontece lá dentro devido às maravilhas que criou . Maravilhas que eu só podia imaginar. Mesmo assim todo aquele espaço exterior era deslumbrante. Os pequenos oásis rodeados de árvores e relva tão espantosamente verde. Ali habitavam além do Criador, o seu filho Jesus, S. Pedro e todo o restante staff. Haviam porém alguns que morando dentro do paraíso, exerciam actividades do lado de fora. Era o caso de alguns anjos e as ajudantes femininas do palácio real.
A
nossa conversa porém tinha alcançado um impasse. Os nossos pontos
de vista pareciam estar algo distantes. «Mas Deus, porque é que
devo arrepender-me de algo que me fez tão feliz na terra? Não é
isso que tu queres? Que sejamos plenamente felizes?». «Meu filho,
como já te expliquei, aqui também tenho que ceder um pouco nas
minhas convicções, mais não seja de forma aparente. Se eu for
totalmente a favor, os mais ortodoxos não me largam e se eu for
contra os progressistas dão-me cabo do juizo. Assim encontrei um
meio termo, obrigo as almas a arrependerem-se da vida que levavam na
terra e assim ficam todos mais ou menos satisfeitos.». «Mas isso
não é justo para mim nem para todos os que atrás virão. Nem
sequer para os que já estão à tanto tempo à espera naquela sala
sem fim.», argumentei. «Como vocês dizem lá não terra “Roma e
Pavia não se fizeram em um dia”, logo há que esperar.». Olhei-o
indignado. «Esperar o quê? Que mudes de opinião ou que alguém se
canse de esperar e contra todas as suas próprias convicções se
arrependa do mal que nunca fez?». Deus encolheu os ombros e seguiu
em frente.
Capítulo
8 - Tribunal
A
sessão do tribunal começou com a apresentação do caso perante o
colectivo de juízes, presidido pelo filho de Deus, Jesus.
Acompanhavam-no São Paulo à direita e Santo António do lodo
oposto. A minha defesa era um anjo com pouca experiência. A
acusação, um velho e batido anjo, que só ainda não tinha sido
promovido a arcanjo devido à sua suposta amizade com o "morador
lá de baixo", mais conhecido por Lúcifer.
O
julgamento era apenas uma fachada, tal como Deus já me tinha
avisado. Eu, o réu, há muito que estava condenado. Praticamente
desde o dia que cheguei às portas do Paraíso. Homossexuais ou pedem
perdão e renunciam à sua infame natureza ou irão pura e
simplesmente ter à "cave".
O
veredicto não foi assim qualquer surpresa. Por não me ter
arrependido, só restava um alçapão cuja abertura me levaria numa
abrupta viagem até ao Inferno. Recurso estava fora de questão e
Deus avisara-me antecipadamente que só interferia com a decisão do
tribunal em casos muito especiais. Claramente o meu não era, apesar
de raro.
Tinha
sido Deus a criar o céu e a terra, os planetas, as estrelas, o
Paraíso e o caminho para o andar de baixo. Reservou-me porém uma
pequena surpresa, prova da simpatia que cultivava por mim. O túnel
da descida tinha num ponto bem localizado uma bifurcação secreta,
uma espécie de saída que o Criador tinha inventado. Avisou-me que
não deveria contar a ninguém, pois não queria confusões
desnecessárias com os altos magistrados do Paraíso.
Despedi-me.
"Pode ser que no teu regresso haja mais abertura para o teu
caso" sussurrou-me ao ouvido, seguido de um sorriso e um piscar
de olho. O alçapão abriu-se de repente e lá fui eu por ali abaixo.
Tal como planeado, a bifurcação secreta estava já aberta, à minha
espera. Caí desamparado por meio das nuvens e a terra aproximava-se
cada vez mais de mim. A velocidade aumentava e só pensei que me iria
estatelar completamente num piso duro. Gritei.
"Pedro...
acorda! Que se passa?". Quase dei um salto na cama. Levantei-me
e sentei-me. Aparvalhado olhei em redor. Estava completamente suado e
a meu lado Marco olhava para mim estupefacto. "Não se passa
nada amor", descansei-o. Aproximei os meus lábios dos seus e
proporcionei-lhe um demorado beijo. Deitá-mo-nos e abraçados
adormecemos. Antes porém olhei pela janela. O céu estava limpo e lá
longe, na imensidão do espaço, uma estrela brilhou mais, como se de
um piscar de olhos se tratasse.
FIM
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Um dia...
... vou-te pedir em casamento.
Atreve-te a recusar!!!
Atreve-te a recusar!!!
Etiquetas:
humor,
pensamentos,
ribatejano
Assinar:
Postagens (Atom)


