Este blogue tem conteúdo adulto. Quem quiser continuar é risco próprio; quem não quiser ler as parvoíces que aqui estão patentes, só tem uma solução.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Loucura de uma tarde de verão

Já estava prometido há bastante tempo. Resolvi que esta noite seria adequada para uma nova experiência. Não posso esperar mais pois toda a tarde pensei em ti. Assim que deixar o emprego vou-te buscar. Sento-te junto a mim e faremos a viagem de regresso a casa.

Deixo-te descansar um pouco para que te prepares para o que virá a seguir. Coloco-te no banco e abro-te as pernas com cuidado. Aos poucos tiro-te as calças. Está quente ainda e nem sequer imaginas como o ambiente aquecerá ainda mais.

Toco o teu tronco e sinto os músculos do teu peito. Tiro a roupa e meus dedos sentem  a suavidade dessa superfície que me deixa louco. Esse lustro faz-me imaginar mil e uma loucuras contigo, o quão feliz me farás.

Preparo um banho com sais e outros sabores e acendo o lume. Esta noite terei frango cozido para o jantar.


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Relato de um momento na praia

Milhões de pequenas partículas povoam o espaço em redor. Restos, resultados de muitos anos de desgaste das altas montanhas de rocha mais ou menos dura. Vento. Chuva. Quantos litros de água necessários para transporte e quantos mais que as depositam contra os penhascos que tentam resistir.

Servem de leito para um corpo cansado de mais um dia de labuta. Agarram-se às pernas, especialmente quando unidas ao precioso líquido que é fonte de vida. Pernas que secam lentamente ao ar ainda quente. Algumas gotas de suor escorregam pelas costas, sinal que o corpo precisa de refrescar.

Não me sinto tão só como possa parecer. A uns meros vinte metros, uma matriarca, olha as suas crias, que se aventuram água adentro.

Não há silêncio que valha o som que me envolve. A ondulação, talvez mais inconstante do que gostaria, provocam sensações várias, que vão desde o medo da imensidão à coragem para a aventura. E não, não me sinto tão só como possa parecer. A uns meros vinte metros, uma matriarca, olha as suas crias, que se aventuram água adentro.

O chão é duro, tal como atestam os glúteos já um pouco dormentes. Tento ajeitar a almofada pétrea onde me sento. Apetece seguir em frente para aliviar o desconforto. Porém, a caneta, o caderno e a vontade de escrever, fazem-me ficar mais um pouco. E de onde é que apareceram estes mosquitos que quase me comem as pernas?

Tenho por vezes a sensação que a praia me atrai mais do que sempre pensei. Talvez a costela lusitana e a velha ânsia de ir em busca de outras paragens. Talvez unicamente a solução que a vida encontrou para me mostrar que há mais além da rotina. Seja qual for a razão, agrada-me e cria vontade em querer continuar, em tentar encontrar mais respostas.

Aqui não há monotonia e os corpos nem sempre são iguais. Tento-os comparar e penso sempre que aquele que mais preenche as minhas medidas já cá está, apenas se apresenta algo escondido.

Olho um cão, sossegado e penso se o meu fiel companheiro terá semelhante comportamento quando decidir trazê-lo comigo. Vou ficar à espera que termine o verão para descobrir o resultado.

Vou voltar à água, tentar a fusão com as suas moléculas.

JÁ VOLTO

Faz-me bem a água fresca às articulações dos membros inferiores, ajuda a recuperar de velhas mazelas, resultado de esforços despropositados na prática desportiva. Gosto do sabor salgado, embora nem o devesse provar sequer. Sinto-me bem quando a impulsão molhada tenta derrubar este corpo. De quando em vez o nível sobe e... lá molho os calções outra vez.

Não sei nadar, confesso. Nem sequer tento boiar, não vá o mar levar-me a paragens indesejadas. Limito-me a ficar de molho, a saltitar, qual criança curiosa. E a linha do horizonte que me envolve e tenta puxar-me na sua direcção. Lembro se haverá melhor local para o descanso eterno. Os marinheiros dirão que não, enquanto as suas mulheres preferem os sete palmos de terra. Preferências de quem vive com o coração na garganta e que espera haver um sítio onde se possa depositar uma jarra cheia de flores.

(parágrafo que fica fora desta publicação)

Uma perna dormente faz-me cair para trás, deitando-me na toalha colorida, reactivando a circulação sanguínea. Ou apenas um aviso, de que está na hora de parar de escrever. Concordo com a ideia.

Fim de transmissão


Algures numa praia do oeste, quase deserta.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Eu sei...

... que estou em falta.

Hoje publico o resto.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Patrão - parte 6

Perdia-se de vista a mesa onde tomávamos chá. Deus no topo, que confessou ter uma predilecção especial por pastéis de nata, tinha à sua frente o que deveriam ser pelos meus cálculos, cerca de duas dúzias de tal iguaria. Eu não tinha fome e fiquei-me pelo delicioso chá de uma mistura de ervas, mantida em segredo, resultado de séculos de experiências do arcanjo Gabriel. Continuei a conversa. «Mas Deus e que faz Jesus afinal?». «Olha meu filho, actualmente substitui-me nas minhas visitas a todos os mundos que criei. A minha idade tem-me obrigado a ficar um pouco mais pelo paraíso. A minha idade e S. Lucas com as suas manias de médico. Vê lá que agora inventou que me devo tornar vegetariano.» Nova gargalhada entoou pelo espaço, assustando desta vez um par de pombas brancas que estavam pousadas num candeeiro de pé alto, junto a um velho telefone de manivela. «E Jesus não é um filho obediente?», inquiri. «Olha, é como o tempo: uns dias bons, outros maus. Mas também tem boas qualidades. Foi ele o responsável pela informatização do paraíso. Organizou a biblioteca e criou uma aplicação que pondera as boas acções e as más, para avaliar a entrada no paraíso.». Sorri. «Ou seja, aquela aplicação que S. Pedro tando desgosta.». «Efectivamente. Mas a verdade é que o Pedro agora até tem mais tempo para fazer outras coisas, como pintar, que é uma grande paixão.»

«Uma coisa me deixa intrigado. Como é que o paraíso tem tanto espaço para todos os que já morreram ao longo nos milénios?». «Ainda bem que me fazes essa pergunta, meu filho. Na realidade o paraíso não é interminável e por vezes há a necessidade de enviar alguns lá para a cave, que é o nome carinhoso que aqui damos ao inferno. É claro que a aplicação informática tem dado uma boa ajuda e aqui só para nós tem dado bastante resultado. Uma outra solução é mandar de quando em vez as almas de novo para a terra.». Olhei-o. «Reencarnação? Existe?!». «Claro que existe meu rapaz e é uma das minhas maiores criações. Assim vou-me livrando dos excedentes e dou segundas oportunidades a quem mais merece. Algumas almas precisam de viver várias vezes para que a entrada no paraíso não seja posta em causa.». «Tal como a minha está a ser?», perguntei.

«Meu filho, o teu caso é especial. Quando atribui o livre arbitrio ao homem sempre pensei que ele não o usasse para usurpar a natureza. Esqueci porém que a natureza por si só é mutante, ganhou vontade própria. Então decidi não me preocupar muito com o assunto pois acredito que o amor é a par da amizade, o mais importante sentimento que existe.». «Então porque é que o meu caso é especial?». «Acontece que com a criação das religiões na terra, os membros criaram regras próprias. Umas formam-me atribuídas por tradição e outras por subversão. Ora, muitos desses legisladores quando chegaram cá acima, quase reviraram a casa. Para haver harmonia debaixo do meu tecto lá tive que ceder em alguns assuntos. Daí ter criado algumas adendas ao regulamento. Se por um lado os calei, por outro fiz ver que quem tem a última palavra acabo por ser sempre eu.»


Regulamento - parte 5

O jardim era mais maravilhoso do que tudo o que já vira anteriormente. Árvores enormes formavam um claustro, rodeando um lago com água tão clara que se viam os peixes e as pedras lá dentro. Quando nos aproximámos daquele espelho um peixe veio à superfície, como que a cumprimentar o homem de toga. Aves esvoaçavam pelo ar. Pássaros de mil e uma cores, brilhantes. Sentámo-nos sobre uma pedra e conversámos.

«Quando escrevi o regulamento de acesso às portas do paraíso tudo era mais fácil», explicou-me Deus. «Não havia confusão porque quase não haviam pessoas. Com o passar dos séculos o caso mudou de figura. Para começar os homens tornaram-se fúteis, interesseiros, desordeiros. Não cumpriam as regras que lhes impunha». Olhei-o. «Mas não é suposto o homem gozar do livre arbitrio?!». «Sim, era essa a ideia inicial. Pelo menos pensava eu que era, mas mudou muito o ser humano. Então tive que ir mudando as regras, tentando adaptar o regulamento à realidade. Durante muitos séculos não foram necessárias grandes mudanças mas ultimamente a coisa pia de outra forma.». «Então e porque é que nós somos diferentes? Não merecemos o teu amor de igual forma?», perguntei. Deus levantou-se, espreguiçou-se e voltou a sentar-se. «Qualquer pai deve amar os seus filhos, independentemente dos disparates que façam ou dos caminhos que tomem. E eu não sou diferente. O problema é que até o paraíso se tornou político.». Achei a expressão estranha. «Os anjos e os arcanjos passaram a ter opiniões diferentes e os santos vieram colocar ainda mais questões. Vê o caso de Pedro. Tem dias que ninguém o consegue aturar. É a velhice, dizem alguns... mas eu acho que é mesmo casmurro. Se calhar é defeito de ter sido pescador.». Mandou uma gargalhada sonora que até um unicórnio se assustou. «E não era dos melhores até eu o ter ajudado a pescar com fartura.»


«Então quer dizer que tens um regulamento mas não concordas com ele. Parece-me um pouco estranho, uma vez que és o criador de tudo.». Deus fitou-me. «Pois. A realidade é que aqui no céu apesar de eu governar como todo poderoso não sou nenhum ditador. Já foi o tempo em que eu tinha que decidir tudo. Um dia decidi que devia partilhar a responsabilidade. Numa visita à terra, encontrei uma rapariga bonita e perdi-me de amores por ela. Ora como era minha intensão partilhar o governo do céu, qual a melhor solução além de encontrar um herdeiro? E assim nasceu Jesus, o meu filho e herdeiro.»

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Reclamação - parte 4

Acho que não aqueci lugar pois fui chamado de imediato. «Terceiro gabinete à esquerda.» Disse-me um rapaz bem apessoado. Segui, entrei no tal gabinete e sentei-me. O assento estava frio, mármore. Na secretária, de carvalho velho, um homem, de cabeça virada para os papéis, resmungava. Parece que no céu estão todos mal humorados. Ao que parece, pelo que me disse o velho, as contigências financeiras obrigaram a autentar o número de horas de trabalho. Até os arcanjos já pensavam em fazer greve. «Sabe porque está à minha frente?» perguntou-me. Acenei a cabeça negativamente. «Está aqui porque o raio do software do cálculo do coeficiente de entrada no céu deu erro de novo. E quando dá erro mandam sempre aqui para o velho Joseph Ratzinger. Raios de sorte a minha. Tanto que eu lutei em vida e agora isto.»

«Nos termos da adenda ao artigo 6969 do regulamento de acesso às portas do paraíso, que muito foi contestado mas que o patrão foi resolutivo, todos os homossexuais têm o direito de se arrependerem. Por isso tem uma de duas opções: ou se arrepende imediatamente ou ficará na sala à espera que se arrependa.»

Já esperava há uma eternidade quando me lembrei que sendo a burocracia do céu tão parecida com a da terra, decerto haveria uma solução para o meu problema. Lembrei-me então de ir até ao guichet e pedir o livro de reclamações. Um trovão iluminou o tecto e todos olharam em minha direcção. O homem, de olhos esbugalhados, abriu a boca. Quase dava para lhe ver o estômago. «Livro de reclamações?!».

Indicaram-me uma sala de porta verde. Não a consegui abrir à primeira, de tão enferrujada que estava. Talvez fizesse muito tempo que não era aberta. Pelo menos estava limpa. Um banco iluminado, de tecido felpudo, esperava por mim. Sentei-me e como por magia, apareceu uma secretária, uma caneta e uma folha de papel.

Assim que pousei a caneta no papel para escrever a minha reclamação, um novo trovão entoou pelo espaço. Desta vez o susto foi ainda maior. E do meio de uma nuvem apareceu um homem de toga branca debruada por uma renda azul celeste. «Com que então não estás satisfeito com as regras da casa?!»

(blá blá blá... a conversa do costume)