Este blogue tem conteúdo adulto. Quem quiser continuar é risco próprio; quem não quiser ler as parvoíces que aqui estão patentes, só tem uma solução.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Patrão - parte 6

Perdia-se de vista a mesa onde tomávamos chá. Deus no topo, que confessou ter uma predilecção especial por pastéis de nata, tinha à sua frente o que deveriam ser pelos meus cálculos, cerca de duas dúzias de tal iguaria. Eu não tinha fome e fiquei-me pelo delicioso chá de uma mistura de ervas, mantida em segredo, resultado de séculos de experiências do arcanjo Gabriel. Continuei a conversa. «Mas Deus e que faz Jesus afinal?». «Olha meu filho, actualmente substitui-me nas minhas visitas a todos os mundos que criei. A minha idade tem-me obrigado a ficar um pouco mais pelo paraíso. A minha idade e S. Lucas com as suas manias de médico. Vê lá que agora inventou que me devo tornar vegetariano.» Nova gargalhada entoou pelo espaço, assustando desta vez um par de pombas brancas que estavam pousadas num candeeiro de pé alto, junto a um velho telefone de manivela. «E Jesus não é um filho obediente?», inquiri. «Olha, é como o tempo: uns dias bons, outros maus. Mas também tem boas qualidades. Foi ele o responsável pela informatização do paraíso. Organizou a biblioteca e criou uma aplicação que pondera as boas acções e as más, para avaliar a entrada no paraíso.». Sorri. «Ou seja, aquela aplicação que S. Pedro tando desgosta.». «Efectivamente. Mas a verdade é que o Pedro agora até tem mais tempo para fazer outras coisas, como pintar, que é uma grande paixão.»

«Uma coisa me deixa intrigado. Como é que o paraíso tem tanto espaço para todos os que já morreram ao longo nos milénios?». «Ainda bem que me fazes essa pergunta, meu filho. Na realidade o paraíso não é interminável e por vezes há a necessidade de enviar alguns lá para a cave, que é o nome carinhoso que aqui damos ao inferno. É claro que a aplicação informática tem dado uma boa ajuda e aqui só para nós tem dado bastante resultado. Uma outra solução é mandar de quando em vez as almas de novo para a terra.». Olhei-o. «Reencarnação? Existe?!». «Claro que existe meu rapaz e é uma das minhas maiores criações. Assim vou-me livrando dos excedentes e dou segundas oportunidades a quem mais merece. Algumas almas precisam de viver várias vezes para que a entrada no paraíso não seja posta em causa.». «Tal como a minha está a ser?», perguntei.

«Meu filho, o teu caso é especial. Quando atribui o livre arbitrio ao homem sempre pensei que ele não o usasse para usurpar a natureza. Esqueci porém que a natureza por si só é mutante, ganhou vontade própria. Então decidi não me preocupar muito com o assunto pois acredito que o amor é a par da amizade, o mais importante sentimento que existe.». «Então porque é que o meu caso é especial?». «Acontece que com a criação das religiões na terra, os membros criaram regras próprias. Umas formam-me atribuídas por tradição e outras por subversão. Ora, muitos desses legisladores quando chegaram cá acima, quase reviraram a casa. Para haver harmonia debaixo do meu tecto lá tive que ceder em alguns assuntos. Daí ter criado algumas adendas ao regulamento. Se por um lado os calei, por outro fiz ver que quem tem a última palavra acabo por ser sempre eu.»


Regulamento - parte 5

O jardim era mais maravilhoso do que tudo o que já vira anteriormente. Árvores enormes formavam um claustro, rodeando um lago com água tão clara que se viam os peixes e as pedras lá dentro. Quando nos aproximámos daquele espelho um peixe veio à superfície, como que a cumprimentar o homem de toga. Aves esvoaçavam pelo ar. Pássaros de mil e uma cores, brilhantes. Sentámo-nos sobre uma pedra e conversámos.

«Quando escrevi o regulamento de acesso às portas do paraíso tudo era mais fácil», explicou-me Deus. «Não havia confusão porque quase não haviam pessoas. Com o passar dos séculos o caso mudou de figura. Para começar os homens tornaram-se fúteis, interesseiros, desordeiros. Não cumpriam as regras que lhes impunha». Olhei-o. «Mas não é suposto o homem gozar do livre arbitrio?!». «Sim, era essa a ideia inicial. Pelo menos pensava eu que era, mas mudou muito o ser humano. Então tive que ir mudando as regras, tentando adaptar o regulamento à realidade. Durante muitos séculos não foram necessárias grandes mudanças mas ultimamente a coisa pia de outra forma.». «Então e porque é que nós somos diferentes? Não merecemos o teu amor de igual forma?», perguntei. Deus levantou-se, espreguiçou-se e voltou a sentar-se. «Qualquer pai deve amar os seus filhos, independentemente dos disparates que façam ou dos caminhos que tomem. E eu não sou diferente. O problema é que até o paraíso se tornou político.». Achei a expressão estranha. «Os anjos e os arcanjos passaram a ter opiniões diferentes e os santos vieram colocar ainda mais questões. Vê o caso de Pedro. Tem dias que ninguém o consegue aturar. É a velhice, dizem alguns... mas eu acho que é mesmo casmurro. Se calhar é defeito de ter sido pescador.». Mandou uma gargalhada sonora que até um unicórnio se assustou. «E não era dos melhores até eu o ter ajudado a pescar com fartura.»


«Então quer dizer que tens um regulamento mas não concordas com ele. Parece-me um pouco estranho, uma vez que és o criador de tudo.». Deus fitou-me. «Pois. A realidade é que aqui no céu apesar de eu governar como todo poderoso não sou nenhum ditador. Já foi o tempo em que eu tinha que decidir tudo. Um dia decidi que devia partilhar a responsabilidade. Numa visita à terra, encontrei uma rapariga bonita e perdi-me de amores por ela. Ora como era minha intensão partilhar o governo do céu, qual a melhor solução além de encontrar um herdeiro? E assim nasceu Jesus, o meu filho e herdeiro.»

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Reclamação - parte 4

Acho que não aqueci lugar pois fui chamado de imediato. «Terceiro gabinete à esquerda.» Disse-me um rapaz bem apessoado. Segui, entrei no tal gabinete e sentei-me. O assento estava frio, mármore. Na secretária, de carvalho velho, um homem, de cabeça virada para os papéis, resmungava. Parece que no céu estão todos mal humorados. Ao que parece, pelo que me disse o velho, as contigências financeiras obrigaram a autentar o número de horas de trabalho. Até os arcanjos já pensavam em fazer greve. «Sabe porque está à minha frente?» perguntou-me. Acenei a cabeça negativamente. «Está aqui porque o raio do software do cálculo do coeficiente de entrada no céu deu erro de novo. E quando dá erro mandam sempre aqui para o velho Joseph Ratzinger. Raios de sorte a minha. Tanto que eu lutei em vida e agora isto.»

«Nos termos da adenda ao artigo 6969 do regulamento de acesso às portas do paraíso, que muito foi contestado mas que o patrão foi resolutivo, todos os homossexuais têm o direito de se arrependerem. Por isso tem uma de duas opções: ou se arrepende imediatamente ou ficará na sala à espera que se arrependa.»

Já esperava há uma eternidade quando me lembrei que sendo a burocracia do céu tão parecida com a da terra, decerto haveria uma solução para o meu problema. Lembrei-me então de ir até ao guichet e pedir o livro de reclamações. Um trovão iluminou o tecto e todos olharam em minha direcção. O homem, de olhos esbugalhados, abriu a boca. Quase dava para lhe ver o estômago. «Livro de reclamações?!».

Indicaram-me uma sala de porta verde. Não a consegui abrir à primeira, de tão enferrujada que estava. Talvez fizesse muito tempo que não era aberta. Pelo menos estava limpa. Um banco iluminado, de tecido felpudo, esperava por mim. Sentei-me e como por magia, apareceu uma secretária, uma caneta e uma folha de papel.

Assim que pousei a caneta no papel para escrever a minha reclamação, um novo trovão entoou pelo espaço. Desta vez o susto foi ainda maior. E do meio de uma nuvem apareceu um homem de toga branca debruada por uma renda azul celeste. «Com que então não estás satisfeito com as regras da casa?!»

(blá blá blá... a conversa do costume)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Espera - parte 3

S. Pedro parecia visivelmente cansado quando me apresentei. Nem consegui dizer o meu nome pois interrompeu-me na hora. «Sei bem quem és! Está tudo escrito aqui no livro da vida e da morte.» Fitou-me. «Ora vamos a ver... filho de fulano e beltroa... católico... menos mau... solteiro... meia dúzia de pecados menores... umas multas de trânsito que já não serão pagas... parece que o banco perdeu um cliente... ficaste a dever no restaurante no Manuel?!» Corei. «Logo do Manuel? Um dos nossos bons fornecedores... que o meu patrão o perdoe.»

A sala estava bem decorada. S. Pedro mantinha-se junto a um velho computador resmugando. O software estava um pouco desactualizado e a velocidade da máquina deixava muito a desejar. Os dados pareciam estar correctos mas o cálculo não estava correcto. Constantemente aparecia uma mensagem, dando conta de um erro. «Raios para esta tecnologia. Onde é que eu guardei o manual de instruções?! Ah, está aqui junto à Biblia.» S. Pedro abriu um pequeno volume de papel já amarelecido e procurou no índice a página dos erros. Ajeitou os óculos e olhou para mim por cima das lentes. Pegou noutro volume, desta vez de capa lilás, folheou-o, leu o que estava escrito e disse «Oh meu Deus... mais um?!»

O corredor parecia não ter fim. Quadros decoravam as paredes. Paredes?! Na realidade pareciam pairar no ar. Molduras de vários estilos envolviam pinturas antigas. De quando em vez apareciam uns esgatafunhos. Aproximei-me de um quadro e por baixo estrava escrito “Picasso – 2013”. Parámos. A fila era grande, quase não se via o início. O anjo mandou-me esperar.

Mais uma sala, mas desta vez a decoração era deplorável. Bancos corridos dispunham-se ao longo do espaço. Centenas de almas estavam sentadas à espera. Sentei-me junto a um velho de cabelos brancos, que me tirou todas as medidas num ápice. «Acabaste de chegar né?» perguntou-me. Respondi afirmativamente. «Não te preocupes, daqui a uma eternidade vais ser atendido.»

(vai continuar... oh se vai)

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A porta - parte 2

Quando voltei a abrir os olhos não vi ninguém. Mantinha-me no meu lugar mas a meu lado já não estava a freira e o avião parecia estar parado. Não se ouviam as turbinas e dentro do espaço havia uma espécie de nevoeiro. Uma voz doce. «Então vai ficar aí por muito tempo? Os outros já sairam». Virei a cabeça e vi talvez o rapaz mais bonito com quem já me tinha cruzado. Cabelos louros, ouro puro. Olhos azuis, profundos. Lábios rosados, carnudos. Nariz na proporção correcta, um sonho. Bata branca, imaculadamente lavada. «Já parámos?», perguntei. Aquela linda cabeça acenou. «Estamos à tua espera lá fora. Vem comigo».

Levantei-me surpreendentemente devagar. Afinal desde a altura que entrei naquere aparelho diabólico, que desejava sair o mais rápido possível. Cheguei à porta, não havia escada. «Mas como raios vou eu sair daqui? Onde está a escada?». Aquele jovem lindíssimo olhou para mim, pegou a minha mão e avançámos para o abismo. Contrariamente ao que eu esperava flutuámos suavemente até atingirmos um tapete tão imaculadamente branco como a bata e as asas do meu “transporte”. «Asas?! Mas afinal onde é que eu estou?!»

A paz invadiu todo o meu corpo. Quando abri os olhos quase gritei. Afinal era apenas a velha freira que me olhava de cima. «Então meu filho, que se passa?». «Onde é que estamos?». «No céu meu filho, no céu.». «No céu? Então não era suposto já estarmos no chão?!».

«Meus senhores, para quem ainda não tenha percebido, estão todos mortos. Isto é o céu e daqui a pouco chegará o transporte que os levará ao portão número 1. Para quem não saiba, o portão número 1 é guardado por S. Pedro. Tenham cuidado que nem sempre está de bom humor. Pudera... é dono de meio mundo lá na terra e está por aqui preso a guardar o portão do paraíso». Aquela voz rofenha, claramente de quem já fazia esta apresentação fazia alguns séculos, dava todas as indicações. «Crianças vão à frente e depois as mulheres. Os homens esperam e se não houverem lugares vão de pé.» Olhem, no céu também existem problemas com os transportes públicos. Será por causa da Troika?!

(to be continued)

As palavras que estavam guardadas

Quase chorei depois de ler o que escreveste. A minha alegria não se compara com a tua mas amolece-me o coração. Quase invejei esses momentos. Fiquei até tentado a trocar a tua personagem por mim próprio. Fico feliz por ti.

E como sempre digo, a minha felicidade é directamente proporcional às felicidades dos meus amigos. És tu o "culpado" por hoje me sentir mais feliz.

Amigo... simplesmente e maravilhosamente amigo.