Tardiamente percebi que a
tua ausência seria motivo suficiente para enlouquecer. Naquela manhã
acordei e percebi que não estavas comigo. Que tonto fui. Podia ter
largado tudo e com medo quiçá de mim próprio, deixei-te partir.
Tomei um garrafão de coragem, enchi uma pequena mala de roupa e saí
de casa. O banco estava apinhado naquela manhã. Dia de pagamento das
reformas. Levantei quase todas as minhas economias deixando o gerente
daquela dependência bancária de boca aberta. Já me conhecia há muitos anos e sabia o quão sovina eu sempre fora. Teria enlouquecido?
O trânsito estava
anormalmente lento. E eu, que queria chegar rápido ao aeroporto,
desesperava, cada vez que o taxista pisava o pedal dos travões.
Praguejava para mim mesmo, ao contrário do motorista que, com a sua
rudez, se esquecia constantemente que eu estava já ali atrás.
Entrei apressado por
aquele espaço, que embora não me fosse desconhecido era a catedral
da confusão. Apressei-me para a bilheteira e adquiri o tal bilhete
de avião. Estava já à porta de embarque quando me lembrei que
nunca tinha tirado os pés do chão. Queria voltar atrás. Afinal se
Deus quisesse que eu voasse tinha-me mandado à terra como pássaro.
Venci o meu medo pensando na razão que me tinha levado até ali,
estiquei o peito e mesmo nervoso, disse para mim mesmo que o medo é
coisa que não me assiste (onde é que eu já li isto?!).
Todo eu tremia, agarrado
com todas as minhas forças ao banco. Quem me dera que aquele banco
tivesse mais cintos, um só parecia-me pouco. Desejei que aquele voo
fosse como aqueles que se vêm nos filmes de ficção científica, em
que se adormece numa cápsula e só se acorda no destino. «É a
primeira vez que voa?», perguntou-me a senhora que estava a meu
lado. Com alguma dificuldade abri os olhos e visualizei aquela
senhora idosa toda vestida de preto e branco. À primeira vista
parecia um pinguim mas era apenas uma carinhosa freira. Pousou a sua
engelhada mão sobre a minha e disse «Deus está connosco e nada de
mal acontecerá!».
Afinal aquilo lá em cima
não era o que eu pensava. Fitei um ponto no banco da frente e assim
me mantive algum tempo. Uma voz doce saiu das colunas a avisar que
teríamos que voltar a colocar os cintos. Voltar?! Eu nem sequer o
tinha tirado ainda. Livra. Sentiu-se turbulência e fechei de novo os
olhos. Todo o aparelho tremia e eu agarrava-me com todas as forças,
quase fixando os meus joelhos ao banco da frente.
Quando voltei a abrir os
olhos...
(to be continued)



